Seu caminho não é o meu

Seu caminho não é o meu

Por Norma Couri

A frase do poeta e ativista do movimento negro, Oswaldo de Camargo, 84 anos, cabe na fala de 75% de brasileiros. Ele se dirige ao seu filho, Sérgio Camargo, criticado por nomear parentes do chefe e ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, para a Fundação Palmares que dirige. Sérgio quer acabar com o dia da Consciência Negra. Considera o movimento contra a escravidão uma escória maldita e Zumbi, um “filho da p…”.

Bolsonaro, mudo, consente. Como consente, mudo, as barbaridades do ministro Ricardo Salles no Meio Ambiente e um Ministério da Saúde sem ministro há dois meses. Também assentiu à nomeação de um ministro da Educação que já registrou em vídeo sua crença de educar crianças com dor e de manter a mulher submissa ao marido. Milton Ribeiro ainda não mencionou o drama 5,8 milhões de estudantes sem aulas presenciais desde março.

Bolsonaro, mudo, consente que a Saúde do país seja monitorada por um militar da ativa enquanto mais de 2 milhões são infectados pelo vírus. Consente e aprova a Cultura vinculada ao Ministério do Turismo que vai extinguir os debates, intercâmbios internacionais, palestras e publicações da Casa de Rui Barbosa ao transformá-la em Museu. Que nomeia “por apreço à família” um pastor presbiteriano ultraconservador para a pasta da Educação. Que permite, naquela reunião fatídica, a ministra dos Direitos Humanos pedindo a cabeça de governadores e Ministros do STF.

Sob Bolsonaro o Brasil do século XXI resvalou Idade Média abaixo.

Estranho seu silêncio diante dos passos do ministério do Meio Ambiente que, supondo andar para a frente, proíbe por 120 dias o que já é proibido, as queimadas. E aceita a afirmação categórica do novo ministro da Educação que pretende governar de forma laica: a Constituição já garante a laicidade.

Antonio Prata tem razão na pândega websérie de sua autoria, Sala de Roteiro, onde Marcos Palmeira, Andréa Beltrão, Mariana Lima e William Costa cada vez se assustam mais com o roteiro surreal apresentado por Dudi, Enrique Díaz. Dirigida por Fernando Meirelles, os roteiristas têm certeza de que há excesso de entorpecentes na cabeça de Dudi. Só pode ser “neurônios a menos” um roteiro de filme que mistura impeachment, gravações de Temer com Wesley Batista, um presidente que faz piada de milhares de mortos e anuncia cloroquina na TV, personagens como Fabricio Queiroz apanhando na jaula do leão do planalto, um ministro da Educação como Weintraub etc. Ninguém compra. O roteiro é o Brasil e, segundo os roteiristas, “só 30% aprovam”.

Faltou o comentário de Fernando Gabeira sobre a ala ideológica, ala militar, ala religiosa, ala pragmática do Planalto, “parece escola de samba”.

Quem vai investir num Brasil com esse roteiro? Um país em eclipse. O psicanalista Joel Birman considera a Covid-19 um marco para o início real do século XXI e define o brasileiro hoje como violento, xenófobo, racista, homofóbico e ressentido.

Se o presidente mergulhar na cabeça dos bolsonaristas a pesquisa realizada pelo Instituto Travessia para o Valor, vai gostar de saber que, apesar dos 80 mil mortos, 79% apoiam sua atuação em relação ao Coronavírus. E com toda violência no país, especialmente contra negros e pobres, o aumento de 600% de novos armamentos em dez anos, 75% aprovam a liberação do uso de armas e 98% que a polícia atue com maior rigor contra os criminosos.

Na política ele perde e ganha. Enquanto 95% concordam com suas críticas ao Congresso, 58% reprovaram a aproximação com o Centrão. Perceberam que Bolsonaro comprou o amor de mais de 200 deputados do Centrão, muitos garfados pela Lava-Jato, o que já deu frutos na fala do líder do grupo, Arthur Lira (PP-AL): “Não podemos ter um impeachment todo ano”.

No ódio à imprensa, seu esporte predileto, 84% estão com ele. Conservadores no campo “moral e bons costumes”, 53% desaprovam manifestações a favor de grupos LGBT+.

Onde Bolsonaro nada de braçada é no reduto de 54% de evangélicos. Bolsonaro confirma a máxima de que dinheiro compra até amor verdadeiro. Em troca do apoio incondicional dos evangélicos desde a campanha de 2018, ele já autorizou o bispo e sua mulher, Ester Bezerra a assumir 100% do Banco Renner através de uma off-shore no exterior — até os governos de Dilma e Temer, a autorização não passava de 49%.

Seus dois filhos, Carluxo e Flávio, por agrado ao bispo Edir Macedo da Igreja Universal do Reino de Deus, estão filiados ao partido Republicanos, ligado à linha neopentecostal. Os membros desta Igreja são acusados de lavagem de dinheiro mundo afora.

Mais que o número de evangélicos, 60% aprovam a religião orientando as ações do governo. A bancada evangélica é tão forte que pretende barrar a figura jurídica criada pelo STF para, junto com o abuso do poder político e econômico, regular e barrar a influência das igrejas durante as campanhas. É o abuso de poder religioso.

Dos 30% bolsonaristas, a maioria mora no Sudeste (Rio e São Paulo), têm idade a partir de 45 anos, e renda acima de 10 salários mínimos que despencou no governo Lula mas se manteve igual ao nível conquistado no governo militar.

O que não impede 62% de serem contra um golpe militar. Na avaliação do professor de ciência política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, José Álvaro Moisés, há uma brecha para a aproximação com núcleos mais progressistas. A pesquisa revela que 83% são a favor das manifestações a favor da democracia.

O que o eleitorado do presidente pensaria do penduricalho de R$1,3 bilhão entregue aos militares este ano? E dos 2.643 mil militares em cargos comissionados no governo federal? E mais 1.969 empregados no INSS? Na Saúde, 1.249. Na soma total, são 6.157 militares no governo, pelo menos um na ativa à frente do Ministério da Saúde, o general Eduardo Pazuello, o que desagrada ao Exército: “Votaram numa chapa que tinha um capitão como presidente e como vice, um general. É proibido militar assumir funções de ministro no nosso governo? Não”, concluiu Bolsonaro semana passada.

A pesquisa mostra que Bolsonaro e os Zeros atiravam fora quando pregavam a volta do AI-5. Nem o Exército aprova. O próprio Pazuello declarou à Veja “Nem sei o que é o AI-5, nasci em 1963”. Com o golpe de 1964, o regime perdurou no país até 1985 e deixou 434 vítimas entre 191 mortos e 210 desaparecidos segundo a Comissão da Verdade. “Isso é passado”, afirmou.

O ministro Gilmar Mendes deu o alerta aos militares para o risco que correm ao pactuar com o genocídio. A resposta veio do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo que pela quarta vez ressuscita a famosa Lei de Segurança Nacional da ditadura contra ele. A lei, que nasceu para intimidar a imprensa, foi usada este mês contra Hélio Schwartsman, o jornalista que desejou a morte de Bolsonaro. E mês passado contra o cartunista Aroeira e o jornalista Ricardo Noblat pela criação e reprodução do cartoon com a cruz vermelha de um hospital transformada em suástica pelo presidente.

Ao dissecar a pesquisa do Valor, o presidente não vai gostar de saber que os bolsonaristas são contra a redução das reservas indígenas, 55% contra a matança de índios. Bolsonaro, mudo, permite o genocídio de índios, negando o seu acesso à água potável em plena pandemia.

A seu favor, os bolsonaristas não acham que o presidente e sua família tenham se envolvido em casos de corrupção. O que achariam de um depósito de R$ 25 mil em dinheiro vivo feito pelo militar aposentado, Fabrício Queiroz, na conta da mulher do senador Flávio Bolsonaro, de quem era assessor? Isso, uma semana antes de o casal quitar a primeira parcela da compra de uma cobertura em construção na zona sul do Rio. E da realização do sonho da casa própria da ex-mulher do pai? Quando estava casada com o então deputado federal Bolsonaro, de 1997 a 2008, Ana Cristina Siqueira se envolveu com quase 40 escrituras de compra e venda, e 20 registros em cartórios do Rio e Brasília. Ao sair do casamento onde chegou sem nada, tinha realizando seu sonho de 14 apartamentos, casas e terrenos. Cinco, adquiridos com “dinheiro vivo”, a moeda da corrupção.

Não houve perguntas sobre a CPMF disfarçada que o ministro Paulo Guedes pretende ressuscitar e enfiar goela abaixo na reforma tributária.

Nem sobre a Cultura. Ali, Mário Frias continua atuando na malhação. A Ancine está há um ano sem presidente efetivo e a lei Rouanet foi detonada com as críticas que ele fez aos “barões”, “Usada pelo PT para comprar a classe artística”. Frias avisou como pretende salvar a Cinemateca: retomando a administração da Fundação Roquete Pinto, só que sem pagar a dívida ou o salário dos trabalhadores, atrasado há meses.

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Norma Couri é jornalista.

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/conjuntura-politica/seu-caminho-nao-e-o-meu/

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