Quando o silêncio é cúmplice

Quando o silêncio é cúmplice

Vladimir Araújo

 

O presidente Jair Bolsonaro é um cafajeste da pior espécie. Escudado covardemente na certeza de que não será forçado a deixar o cargo por saber que dificilmente seu impeachment passaria no Congresso Nacional, comete absurdos diários a plenos pulmões para quem quiser ouvir e principalmente para a horda de pequenos, mínimos mesmo, idiotas que se acotovelam todas as manhãs para vê-lo despejar seus desprezíveis ataques contra tudo e todos. A grande pergunta é: até quando? Até quando os envergonhados eleitores que, tenho certeza se arrependeram de seus votos ficarão calados? Até quando se permitirá o festival de desmandos que somos hoje obrigados a suportar juntamente com as preocupações cotidianas de desde sempre? Vive-se hoje sob a égide do absurdo. A fala ou gesto impensável de ontem serão substituídos por outro gesto ou fala execrável de amanhã. O tempo de hoje passa rápido. Valerá a pena ficar calado? Semana que vem não terá sido muito tarde? À falta de argumentos que consigam sequer minimamente contestar o óbvio despreparo de Bolsonaro frases se repetem: “ e o ladrão do Lula?”, “ no tempo do PT era pior” etc.

Acordemos de uma vez por todas: não se trata mais de apedrejar o Lula, quer ele seja culpado ou não por todos os crimes da humanidade. O fato que aqui se desenha é mais grave e aqui me permito uma digressão absolutamente pessoal: você que votou no Jair “ pra tirar o PT”, entenda: você agiu sem calcular o risco. Havia outros candidatos, porém você preferiu dar voz a um pulha, mas vamos lá, talvez ainda haja tempo de reparar o erro grosseiro. Já você que votou por convicção e continua hoje a defender o indefensável, desculpe, seu problema é de caráter. Mau-caráter. Desejo a você toda a vergonha do mundo. Que não consiga encarar seu filho, que você se esconda embaixo do ralo tecido moral que lhe cobre o rosto e que lhe falte a coragem para levantar da cama. Pode mentir, dizendo que não votou? Sim, a mentira é sempre uma opção para os covardes. Mas não se engane: à noite você estará sozinho. E também não adianta achar que não terá dramas de consciência: a não ser que você seja uma barata não kafkiana, pois até aquela se permitia arroubos filosóficos, esteja certo de que esta lhe doerá. Estamos a mercê de um individuo insano. Mais: insano e perigoso vez que detém o poder nas mãos. Mais ainda: de tão despreparado para perceber o que se lhe avizinha, cerca-se de hienas com estrelas nos ombros que podem vir a ser tão ou mais perigosas que ele. Afirmar que Bolsonaro é uma ameba moral parece ser uma constatação óbvia, basta abrir os jornais. O que se questiona é qual será o momento em que se dará institucionalmente um basta ao que hoje degrada e põe em risco princípios democráticos tão arduamente conquistados ao longo dos anos. Na cena III, Ato I de Hamlet e exaltando o silêncio como forma de se construir os próprios conceitos escreveu Shakespeare: “A todos, teu ouvido; a voz, a poucos; ouve opiniões, mas forma juízo próprio.” Contrariando o bardo, estamos chegando a limites jamais imaginados. É chegada a hora do grito.

Vladimir Araújo é advogado, professor e mestrando em tradução pela Universidade Federal do Ceará.

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