Você sabe o que é o argumento do espantalho?

Você sabe o que é o argumento do espantalho?

Por Susy Almeida

O argumento do espantalho é também conhecido como distorção do ponto de vista do oponente. Até quem não vive de observar argumentação sabe que isso faz parte de qualquer debate ou, de modo mais geral, de qualquer discussão. Quem nunca distorceu o que o outro disse que atire a primeira pedra!

Como argumentos são distorcidos? Há, basicamente, quatro modos de fazer isso: 1. retirar afirmações do contexto em que foram enunciadas; 2. generalizar afirmações originalmente mais restritas; 3. alterar o sentido de palavras ditas; e 4. fazer com que raciocínios indutivos (do particular para o geral) se tornem dedutivos (do geral para o particular).

Vamos a um exemplo concreto? Voltemos algumas casas no jogo da vida (sem trocadilhos com aquele jogo de tabuleiro da década de 90) e vamos para os anos entre 2014 e 2018. Havia, nesses anos, relativa profusão de textos antifeministas na internet. Sabemos hoje o que isso queria armar e produzir. Pois bem, uma ideia batida e rebatida nesses textos era esta: ao longo da história humana, os homens exerceram grande sacrifício pelas mulheres e por suas famílias ao escolherem trabalhar fora de casa. Para a mulher, o trabalho exclusivamente doméstico era uma proteção. Eles, coitados, ao irem trabalhar fora, estavam assumindo o grande peso desse sacrifício. Bom, creio que você já deve ter visto como as ideias foram bastante distorcidas nessa exemplificação até caricata que fiz. O argumento seguinte era desautorizar o feminismo, porque, seguindo essa lógica, ele veio para desproteger as mulheres. Imagine agora uma pessoa a favor do feminismo e outra contra o feminismo discutindo diante de uma plateia que acredita que “menino veste azul e menina veste rosa”. Quem sairia como espantalho?

A referência ao espantalho diz respeito, então, ao fato de um dos debatedores criar uma versão do oponente, por distorcer aquilo que ele disse, que não corresponde a quem o oponente é ou faz parecer ser. A versão que se cria do outro é um espantalho dele. Isso pode até não ser honesto, mas você há de convir que há eficácia persuasiva nesse procedimento, embora as ideias realmente apresentadas sejam postas de lado e não discutidas.

Susy Almeida é Doutora e mestre em Linguística e professora de português e alemão em Fortaleza.

(Contatos: (@susyanne.ac )

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