Por que ler livros? Para adiar o fim do pensamento, o fim da vida

Por que ler livros? Para adiar o fim do pensamento, o fim da vida

Julián Fuks

Ler um livro com um simples toque dos dedos, ou ingeri-lo num comprimido, inseri-lo na pele com uma agulha: como quer que seja, num ínfimo lapso conhecer tudo o que ali está escrito. Eis um sonho antigo na história da humanidade, a possibilidade de adquirir um saber súbito, de assimilar sem nenhum esforço todo o conhecimento do mundo, de absorver num relance páginas incontáveis de uma biblioteca infinita. Esse velho sonho, muitos o sentem, está agora mais próximo do que nunca. Uma máquina lê por nós e se torna o nosso cérebro externo, e tudo nos diz rapidamente, com um simples toque dos dedos, trazendo respostas que nem achávamos que queríamos.

Mas isso, essa instantânea aquisição de um conhecimento exato, completo, monolítico, isso não é ler, isso ainda não é nenhum saber. Quem tem o hábito da leitura sabe bem, quem passa horas debruçado sobre livros esquivos, estranhos, inúteis, sabe que ali a eficácia da informação não tem nenhum sentido. Na leitura o que interessa é o tempo que se perde, não o que se poupa, não o que se tenta guardar para qualquer outra mesquinharia. O que interessa é o instante em que o pensamento do autor se extravia, em que nos perdemos da página e fora dela imaginamos o que nunca tínhamos imaginado, e vemos o que nunca tínhamos visto, e pensamos o que nunca tínhamos pensado. A verdadeira leitura é contrária à utilidade, e por isso tão pouco espaço encontra em nossa sociedade.

Um leitor é também aquele que lê mal, distorce, percebe confusamente, quem o diz é Ricardo Piglia, escritor que parece fundar toda sua obra na experiência da leitura, talvez como todo escritor. O dedo que pressionássemos sobre a capa para baixar o livro completo em nossa mente não nos traria essa valiosa leitura equivocada. Teríamos apenas as ideias límpidas de seus autores, suas histórias sintéticas, suas argumentações impecáveis. Não teríamos a confusão que nos causam, o desnorteio, a perturbação, as muitas associações improváveis, as conclusões insustentáveis, toda a barafunda mental que se torna o caldo a alimentar as ideias próprias, o pensamento original. Pensar talvez seja distorcer o pensamento alheio até lhe dar uma forma nova, arrisco uma formulação.

Lê-se não para aprender, não para entender, lê-se para estar na companhia das palavras. Quando temos, além das palavras, alguma companhia mais corpórea e cálida isso se faz evidente. Volto à cena prazenteira de ler para as minhas filhas, ler no silêncio e na semiescuridão atrasando seu sono cada vez mais, só uma última página, agora a última das últimas, pai, e então a infinitúltima, por favor, e a infinitriquiliúltima. Estão gostando dos livros, é claro, apreciam a companhia de Eva Furnari e Ruth Rocha, mas com elas poderiam estar a sós nas horas diárias. O que desejam nessas noites, creio, é que as palavras lidas por mim adiem ao máximo o fim de seus próprios pensamentos, e pouco a pouco as façam submergir no sonho que suas mentes já antecipam.

Também eu leio tanto quanto posso para adiar ao máximo o fim do meu pensamento, e deixo de ler quando me canso de pensar, quando só desejo da existência um torpor vazio, ou um encontro ameno. Leio e, enquanto leio, tudo o que sei e o que não sei se põe em movimento, todo saber íntimo se inquieta. Estou em diálogo com sujeitos falecidos há milênios, séculos, décadas, estou em diálogo com meus contemporâneos. Estou em diálogo também com os meus amigos, os que escrevem sempre e os que nunca escreveram, os que me muniram de suas palavras em noites longínquas.

Uma palavra de Piglia sobre a morte me devolve o amigo que perdi, há muito tempo. Por um instante, enquanto dura a lembrança, ele está comigo e ainda não foi atropelado em sua bicicleta, ele está comigo e não dentro do caixão em que dele me despedi, caixão que nunca mais visitei, já que ali não o encontraria. Se eu tivesse ingerido o livro de Piglia num comprimido não teria encontrado ainda uma vez o meu velho amigo. E nenhuma síntese, nenhuma informação eletrônica sobre o livro de Piglia o resgataria da morte dessa maneira, tão rara, tão vívida.

Para ter de volta a minha vida, para que ela seja profusa e insondável e infinita, para que a vigília se enriqueça de palavra e se confunda com o sonho que se antecipa, para isso leio, para isso preciso do tempo da leitura. E por isso convido quem agora me lê: que também queira perder esse tempo que urge, queira ler lentamente, sem nenhuma pressa para chegar ao fim do livro, ao fim da vida.

( FONTE https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/julian-fuks/2025/07/19/por-que-ler-livros.htm)

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