Nossos índios, nossos mortos: livro sobre a causa indígena retorna às livrarias
Em ‘Nossos índios, nossos mortos’, Edilson Martins faz denúncias sobre a causa indígena no Brasil, documentando a brutalidade sofrida; veja entrevista com o autor!
Por Éric Moreira
Nesta semana, na quarta-feira, 17, ocorreu o relançamento de um clássico do jornalismo de denúncia brasileiro, após 60 anos fora de catálogo: ‘Nossos índios, nossos mortos‘. Escrito por Edilson Martins, o livro foi pioneiro ao denunciar a violência contra os povos indígenas e a devastação que acontecia na Amazônia, em plena ditadura militar.
Na nova edição, publicada pela Letra Capital Editora, além das reportagens, entrevistas e artigos que já tinha originalmente — em que Edilson Martins revelou e documentou de maneira inédita catequeses, massacres, frentes de expansão, estradas, mineração, “pacificação”, remoções e epidemias —, é apresentado também um novo prefácio, uma crônica sobre Marina Silva quando foi convidada a assumir o Ministério do Meio Ambiente em 2002, e textos originais.
Vale destacar que a primeira edição de ‘Nossos índios, nossos mortos’ vendeu mais de 350 mil exemplares na época, e hoje é vista como um documento histórico, que aborda a questão indígena de uma maneira diferente da mais usual até então — restrita a antropólogos, etnólogos e sertanistas —, trazendo o ponto de vista dos próprios povos originários.
Para isso, o autor registrou experiências que viveu ao longo de 50 anos, em que viajou pelas principais reservas indígenas do país. Ele defende a plenitude existencial destes povos, e relata diversos aspectos de suas organizações sociais, religiosas e culturais, incluindo cerimônias sociorreligiosas, estética, casamento, educação, vida em comunidade, adultério, ciúme, erotismo, poligamia e matriarcado, além dos efeitos das missões católicas, dos processos de substituição cultural, perseguições, invasões, remoções territoriais e consequências na saúde mental.
Agora, décadas após o lançamento original, o livro continua bastante relevante, com o Brasil prestes a sediar a COP 30 em Belém. Enquanto na década de 1970 Edilson denunciou massacres, epidemias e remoções forçadas, hoje o livro é emblemático devido ao contexto atual da emergência ambiental.

Hoje com 86 anos, Edilson Martins forneceu uma entrevista exclusiva à equipe Aventuras na História sobre o lançamento. Confira:
A obra foi pioneira ao levar a causa indígena para além do círculo de especialistas, alcançando o grande público. O que você acha que explica o impacto tão grande que o livro teve na época?
A tragédia dos povos originários era narrada, pela primeira vez, na literatura brasileira, por eles mesmos. Não mais o antropólogo, o indigenista, o sertanista, o escritor, o jornalista, narrando esse extermínio, essa subjugação.
Você comenta que o livro “nunca envelheceu”. O que faz com que essas denúncias e histórias ainda permaneçam tão atuais, 50 anos depois?
Porque se agravaram. O Brasil multiplicou suas fronteiras, ocupou áreas nunca antes penetradas, a Amazônia, maior concentração desses povos, começa a ser devassada. Os crimes, invasões de suas terras, o garimpo, a busca de madeiras, a criação de fazendas, tudo isso somado, acentuou a violência contra esses povos.
O livro traz relatos de massacres, remoções e epidemias, mas também aspectos da vida cultural e social indígena. Como você equilibrou denúncia e registro cultural na obra? Qual importância você deu para cada aspecto?
Nasci na Amazônia. E nela fui criado. Não nas cidades. Todas as cidades são iguais. Umas modernas, civilizadas, outras atrasadas, na idade da pedra. Mas, cidades. Nasci na selva, na beira de um rio onde só se via gente, diferente, de 2 a 3 anos. Nos navios que por lá passavam, a cada tempo desses. Onde nasci, Seringal Esperança, unidade de produção do já decadente ciclo da borracha, não ia além de 30, 35 pessoas.
Você também testemunhou momentos de grande violência, como massacres e perseguições. Como foi, como jornalista, lidar emocionalmente com essas situações ao transformá-las em texto?
Nunca fui além de mero repórter. Acompanhar, acompanhei, a serviço da grande mídia. Jornal do Brasil, revista Manchete, Pasquim, artigos e reportagens para dezenas de veículos. Quer como repórter, quer como documentarista, quer como escritor. Nenhum papel ativo, apenas como profissional.
A obra foi publicada em plena ditadura militar. Como foi possível lançar um livro com denúncias tão contundentes naquele contexto de censura e repressão?
[…] Havia àquele tempo a figura do Rondon, general, ícone do Exército, ele próprio um índio. A ditadura censurar, tirar do mercado, onde quem fala é o índio, ele que conta sua história, ficou difícil para a ditadura. O livro abriu, portanto, essa rota de fuga.
Nos anos 1970, suas denúncias expunham massacres e remoções forçadas. Hoje, essas populações continuam ameaçadas por desmatamento, mineração e mudanças climáticas. O que você avalia que mudou, e o que permanece igual?
Tudo se agravou pelo que já disse. Principalmente no último governo de Bolsonaro se estabeleceu uma política de estado esvaziando todos os órgãos de fiscalização e proteção dessas questões; meio ambiente, reservas ecológicas, povos originários. Funai e ICM bio, Ibama, praticamente desapareceram.
Por fim, sobre a chegada iminente da COP 30, Edilson opina que seu livro é “uma leitura obrigatória, para quem de fato queira conhecer, sem rodeios, sem firulas, sem academia, a questão indígena”. Isso porque “essas culturas nos ensinam que podemos viver em harmonia com a natureza, com o meio ambiente. Desde que queiramos aprender”.
FONTE : https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/reportagem/nossos-indios-nossos-mortos-livro-sobre-a-causa-indigena-retorna-aslivrarias.phtml
Descrição
Este livro tornou-se um testemunho valioso, não pelo autor, por óbvio, mas pelo resgate histórico hoje avaliado.
Desde o seu lançamento, nos idos dos anos 70, pelo Grupo O PASQUIM, explode em vendas e reverte a imagem até então dominante de que os povos originários “eram exóticos, tinham várias mulheres, não serviam como mão de obra, e podiam até comer carne humana”. Já em 1951, levados pelo general Rondon, amigo de verdade dessas nações, um grupo formado pelos irmãos Villas Boas – Orlando e Cláudio – Noel Nutels, Gama Malcher e Darcy Ribeiro pede a Getúlio Vargas, presidente do Brasil, que crie um parque nacional dos Índios.
Nossos Índios Nossos Mortos, em sua 7ª edição, após de ter alcançado a marca de mais de 350 mil exemplares, e quase 50 anos não editado, finalmente é relançado pela editora Letra Capital.
Sua importância recai na tribuna, na voz, na oportunidade de fala que pela primeira vez acontece na narrativa de suas tragédias, contada por eles mesmos. Quem o fazia antes eram os antropólogos, etnólogos, estudiosos, sertanistas ou mesmo jornalistas. Os autores do livro são as populações originárias, de todo o país, de norte a Sul, de Leste a Oeste, mal dominando a língua da sociedade abrangente, ignorando inteiramente o chamado mundo civilizado, exceto sua crueldade, perplexos, iniciando uma longa caminhada de aprendizagem. Os cientistas, pesquisadores, sertanistas estão presentes, mas apenas complementam, quando podem, o discurso sofrido e épico desses povos. O livro conta, pela voz deles, a perplexidade dessas nações originárias, o desencanto e a certeza de condenados a desaparecer.
Nada foi adocicado, paternalizado, revisado, copidescado. Inclusive a própria linguagem da época que os classificava como primitivos.
Os depoimentos são redundantes, mal formulados, e explicitam os sinais da subjugação final, iminente. E, no entanto, decorridos 50 anos ganharam cidadania, têm um ministério, dirigem a Funai, parques nacionais, estão na Academia, não precisam mais de “civilizados” para requerer seus direitos. O que não quer dizer que a exclusão cessou, a invasão de suas terras acabou, que finalmente são legitimados pelo estado e pela sociedade brasileira. Nestes últimos 50 anos o mundo mudou mais, garante a ciência, que nos últimos 12 mil anos de civilização.
É possível.
Os povos originários, apesar de não poucos inimigos, apesar do extermínio histórico, apesar de governos estúpidos, sobreviveram.