Esaú e Jacó

Quando uma mãe procura uma vidente com o intuito de antever o futuro de seus gêmeos, recebe a resposta: “Cousas futuras!”. Mas o que estaria reservado ao destino desses dois personagens idênticos e ao mesmo tempo tão diferentes?

Enquanto aguardavam o futuro grandioso para a prole, Natividade e Santos gostariam que seus filhos fossem felizes e vivessem bem em família. Mas é verdade também que brigavam desde a barriga. Os irmãos Pedro e Paulo, gêmeos idênticos, personificam desde o início deste livro forças opostas em suas crenças pessoais. Apesar de nascidos sob a promessa de um futuro grandioso, a convivência beligerante desde o útero, tal um mito bíblico, evidencia que a convivência em família nem sempre tem tréguas. Narrado com a ironia fina de um diplomata, no período de transição da Monarquia para a República no Brasil, este livro mostra também a natureza de um país segmentado desde os seus primórdios.

Em Esaú e Jacó, penúltimo romance de Machado de Assis, o autor leva ao limite os jogos de oposição que estruturam a vida social e os conflitos humanos, convidando o leitor a observar não só o jogo cego de repetições que estrutura uma sociedade, mas também a refletir sobre como essas mesmas repetições talvez simbolizem a própria condição humana. Mais do que protagonistas de um dilema familiar, Pedro e Paulo são alegorias da fragilidade de nossas certezas, representando rachaduras que marcam tanto relações íntimas quanto dilemas sociais.

A edição da Antofágica deste clássico conta com mais de 50 ilustrações do artista Pedro Meyer, professor da UFRJ/EBA, além de apresentação do escritor Stefano Volp, autor de Homens pretos (não) choram e Santo de casa. Nos posfácios, Rogério Fernandes dos Santos, professor de teoria literária e literaturas de língua portuguesa da UEPB, analisa a complexa estrutura ficcional machadiana; Fabiane Guimarães, autora de Apague a luz se for chorar, faz uma conexão entre a personagem Natividade e a experiência materna; e Sidney Chalhoub, professor de história na Universidade de Harvard, traça um panorama sobre o contexto histórico brasileiro retratado por Machado de Assis.

Ao escanear o QR Code na cinta, o leitor tem acesso a duas videoaulas de Raphael Valim, professor e pesquisador em literatura brasileira.

Editora Antofágica

Data da publicação 25 junho 2025

Número de páginas 448 páginas

ISBN-10 6580210516

 

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Esaú e Jacó: o olhar crítico de Machado sobre a realidade que perdura até os dias de hoje.

 

Esaú e Jacó

1904

Esaú e Jacó, publicado em 1904, é o oitavo e penúltimo romance de Machado de Assis. Situado entre aquele que é por muitos considerado o ponto alto da ficção machadiana, Dom Casmurro (1900), e o rarefeito relato do Memorial de Aires (1908), a obra não costuma assumir papel central nos estudos machadianos ou no imaginário dos leitores brasileiros. Mas, ainda que um pouco obscurecido pela fascinante vizinhança, Esaú e Jacó não se apequena diante dos demais livros da fase madura de Machado de Assis.

Por vezes qualificado como profissão de fé da estética machadiana, Esaú e Jacó constitui-se através de um complexo jogo de espelhos, no qual o narrador ora é identificado com o conselheiro Aires, também personagem do livro, ora com a própria persona Machado de Assis, de quem Aires pode ser considerado um duplo. O conceito de duplicidade, além disso, se estende a várias instâncias narrativas e, como é costumeiro na obra do autor, é constantemente posto em xeque. Como exemplo, basta o próprio título do romance, referente aos dois protagonistas, Pedro e Paulo, que, embora gêmeos, estão em perene conflito, desmentindo a crença, muitas vezes reforçada pela ficção, na solidariedade indissolúvel entre univitelinos.

A questão do narrador, sempre problemática em Machado, desde os primeiros contos até o Memorial de Aires e até em romances aparentemente narrados em terceira pessoa neutra, como Quincas Borba (1891), é em Esaú e Jacó acompanhada de um procedimento bastante sofisticado no que diz respeito à epígrafe do livro. A epígrafe é explicada no capítulo XIII. No anterior, o narrador “neutro” havia introduzido a personagem Aires e “transcrevera” um trecho do seu diário, que termina com a citação de um verso de Dante: Dico che quando l’anima mal nata… (“Digo que quando a alma mal nascida…”). A partir daí, o narrador de terceira pessoa recupera a voz narrativa e diz:

Ora, aí está justamente a epígrafe do livro, se eu lhe quisesse pôr alguma, e não me ocorresse outra. Não é somente um meio de completar as pessoas da narração com as idéias que deixarem, mas ainda um par de lunetas para que o leitor do livro penetre o que for menos claro ou totalmente escuro. (cap. XIII)

Ressalte-se a subversão temporal processada: ao suposto autor da narrativa, que conta uma história com base nas anotações do diário de uma de suas personagens, ocorre, no 13º capítulo, dar ao livro, por epígrafe – “um par de lunetas para que o leitor penetre o que for menos claro, ou totalmente escuro” -, um verso de Dante que essa sua personagem havia “truncado” e aplicado a uma situação absolutamente banal e quotidiana. Mas a subversão não é meramente técnica, embora isso por si só já fosse muito. Se tentarmos descobrir o que pretende este citador impenitente, percebemos que a subversão é mais radical, porque: a) o verso de Dante é deslocado, posto no mesmo patamar do adágio popular “O que o berço dá só a cova o tira”; é, portanto, trivializado, rebaixado e, o que é pior, através dessa equiparação, sofre uma fixação de sentido: l’anima malnata está destinada a ser má por toda a vida; b) o verso de Dante é utilizado como antecipação do que o narrador quer que acreditemos acontecer no enredo, isto é, que os gêmeos Pedro e Paulo (que, como Esaú e Jacó, já brigavam no ventre materno) têm “almas mal-nascidas”, ou “mal-concebidas”, isto é, estão predestinados à dissensão, ao conflito, à rivalidade irreconciliável: “o pau que nasce torto morre torto.”

Ora, o verso de Dante, no contexto do canto V do “Inferno”, não diz isto. É, sim, parte de uma narração dos horrores infernais, a saber, da maneira pela qual Minos, lendário rei de Creta, famoso por seu senso de justiça e figurado no poema como um dos juízes do “doloroso ospizio”, atribui a pena segundo o modo de enrolar a cauda, isto é, cinge-se com a cauda tantas vezes quantos são os círculos do inferno que a alma danada (“l’anima mal nata”) deve descer.

Machado (seu narrador) não trunca o verso, que, pelo contrário, reproduz fielmente; antes o desenraíza e o emprega com uma visão entre fatalista e determinista que não poderia existir, e não existe, no original. O narrador-autor finge que quem lhe dá a chave para a decifração do livro é o memorial do Conselheiro, mas é ele, o autor, quem a inscreve no início do livro e é ainda ele quem atribui ao verso de Dante – na acepção especial e especiosa que lhe dá – a função de habilitar-nos, a nós, leitores, a enxergar o que está menos claro, embora não totalmente obscuro.

A técnica complicada, no entanto, encontra seu equilíbrio na prosa simples e precisa de Esaú e Jacó, marca registrada, aliás, da produção ficcional de Machado de Assis como um todo. Já nas resenhas publicadas à época em que o romance veio a público, destacava-se o modo de tratar as ações narradas, isto é, as qualidades da construção e dicção da prosa. O crítico José Veríssimo, ao resenhar o livro logo depois de sua publicação, chegou a afirmar que “a história é simples, e por isso mesmo difícil de contar. Aliás as histórias do Sr. Machado de Assis perderiam muito em ser recontadas por outros. O seu principal encanto talvez esteja no contador.”

A atenção dispensada aos processos de construção textual explica-se pela aparente imobilidade do enredo. Há poucos “grandes acontecimentos” capazes de transformar o curso da narrativa. A trama gira em torno de Pedro e Paulo, seus pequenos desentendimentos e a disputa pelo amor de Flora, que se dá sem os arroubos românticos que a estrutura triangular sugere. O enredo de Esaú e Jacó, como definiu o crítico John Gledson, é “calculado para desapontar”. Diante dessa configuração, cabe ao leitor o papel de observador astuto dos movimentos mais sutis, e não raro contraditórios, da alma humana, encenados em Esaú e Jacó com a destreza característica de Machado de Assis.

https://machadodeassis.net/texto/esau-e-jaco/13998/chapter_id/13999

 

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