A trama das árvores

A trama das árvores
Richard Powers

Trad. Carol Bensimon // Todavia // 648 pp // R$ 129,90

Neste romance vencedor do Pulitzer de Ficção em 2019, o escritor estadunidense tece uma ficção climática que reflete sobre a conexão entre humanos e árvores e o futuro do planeta. Ao longo da narrativa, o autor de Deslumbramento (Todavia, 2023) percorre o inusitado entrelaçamento entre quatro personagens tentando salvar uma floresta nos EUA.

Em resenha para a Quatro Cinco Um, Ana Rüsche escreve que “Powers curva a forma literária para conceder a dimensão de algo difícil de retratar: a essência de uma floresta, com suas interrelações e magnitudes. Para a crítica brasileira Fabrícia Walace, o autor capta a ‘urgência de uma literatura que valoriza a conexão intrínseca entre todos os seres vivos’”.

‘A trama das árvores’ se debruça sobre ‘vidas interiores’ de vegetais e seres humanos

Romance ganhador do Prêmio Pulitzer explora o ativismo ambiental e a tensa relação entre o homem e a natureza

Por  Kelvin Falcão Klein especial para O GLOBO

O romancista americano Richard Powers, que vem publicando de forma consistente desde os anos 1980, é conhecido por uma obra que apresenta reflexões sobre a relação — cada vez mais difícil — entre os seres humanos e a natureza. O romance que chega agora ao Brasil, “A trama das árvores”, de 2018, foi vencedor do Prêmio Pulitzer de Ficção no ano seguinte. O livro apresenta as histórias de nove pessoas: suas vivências variadas com árvores levam a uma consciência compartilhada do drama da destruição das florestas. Por meio de narrativas entrelaçadas que atravessam várias gerações, Powers explora temas de ativismo ambiental, a interconexão dos seres vivos e o relacionamento da humanidade com o mundo natural.

Vidas interiores

Os personagens são apresentados e desenvolvidos sempre por meio de suas relações com o exterior. É o caso, por exemplo, de John Hoel, que “enterra o pai atrás da castanheira que o homem plantou”. No movimento de apresentação e aprofundamento dos personagens, contudo, Powers sempre faz questão de voltar o foco sobre o mundo natural ao redor: “A árvore logo acima projeta sua sombra sobre os vivos e os mortos com a mesma generosidade. O tronco já se tornou robusto demais para John abraçá-lo. A saia mais baixa dos galhos sobreviventes cresce fora de alcance”. É possível ler o romance de Powers como uma longa meditação sobre essa área “fora de alcance”, que ao mesmo tempo aproxima e afasta a sociedade contemporânea e as árvores.

O interesse majoritário de Powers, contudo, não está na separação entre humanidade e natureza, e sim nos caminhos potenciais de mescla e mistura entre os dois registros. O autor revisita incontáveis vezes a metáfora da profundidade e da multi-estratificação das vidas: árvores e seres humanos têm “vidas interiores”, campos de suas respectivas existências que estão fora da vista (as raízes, as sementes), mas que são determinantes para o “ecossistema” em que estão inseridos.

Essa metáfora regula e organiza o andamento de todas as linhas narrativas de “A trama das árvores”, como acontece com a personagem Olivia Vandergriff. Powers é muito preciso ao comentar, por exemplo, o “despertar psico-sócio-sexual da pequena Olivia” quando vai para a universidade: “Chegou ao campus três anos antes com um ursinho de pelúcia, um secador de cabelo, uma pipoqueira elétrica e uma honraria do ensino médio pelo seu desempenho no vôlei. Ela pretende sair na próxima primavera com um histórico escolar repleto de crateras, dois piercings na língua, uma tatuagem de flores na escápula e um caderninho de viagens mentais que ela nunca poderia ter imaginado”. Mesmo nas cenas específicas e, por vezes, aceleradas — como na junção entre os pontos iniciais e finais da jornada de Olivia na universidade —, Powers faz questão de insistir nessa imagem do desenvolvimento (da semente à árvore adulta).

Projetos utópicos

A falta de cuidado de boa parte das sociedades — especialmente aquela dos Estados Unidos, de onde fala Powers — com relação à natureza é, como não podia deixar de ser, um dos eixos sustentadores de “A trama das árvores”. Muitas coisas dão errado — tragédias, destruições, mortes. O longo romance de Powers tem espaço também para os projetos utópicos de recusa (ou atentado direto) da sociedade tal como se apresenta, um traço distintivo da literatura estadunidense, de Thoreau a Don DeLillo. Ao apresentar a trajetória de Nicholas Hoel, o narrador escreve: “É mais fácil viver meses no alto da copa de uma sequoia-vermelha do que passar sete dias no nível do solo. Tudo tem dono; um bebê de 1 ano sabe disso. Uma lei tão verdadeira quanto as leis de Newton”.

Como escapar desse controle, desse horizonte fechado? “A trama das árvores” não apresenta soluções ou respostas, apenas coloca sobre a mesa — de forma inventiva em termos formais — alguns percursos e afetos, mediados pelas biografias dos personagens. A tônica do romance está na ideia de que a vida humana não é completa se não leva em conta toda a vida não-humana que gravita ao seu redor.

Girohost - Soluções em Tecnologia