Um dia de chuva em Nova York

Manhattan reimaginada

Por CESAR CASTANHA

Nós conhecemos muito bem Manhattan segundo Woody Allen. Poucos diretores produziram um arquivo tão significativo sobre esse lugar quanto ele. É preciso reafirmar, no entanto, que estamos falando de Manhattan, não do Brooklyn de Martin Scorsese e Spike Lee, nem do mais televisivo Queens. Há uma geografia de classe que é muito específica a esse distrito, uma que agencia também questões relativas a religião, raça, gênero, ao espectro político, à formação acadêmica, muito do que podemos reconhecer nos conflitos dos filmes de Allen.

Um Dia de Chuva em Nova York (A Rainy Day in New York, 2019), assim, adequa-se totalmente a essa ideia de Manhattan que vemos com frequência na filmografia do cineasta. Em certo sentido, esse é um lugar dos longos vestidos requintados que escorrem até o chão em uma festa de gala, das telas expostas no Museu Metropolitano, dos revestimentos dos atraentes sofás dos apartamentos habitados pela elite. A Manhattan de Allen tem um tecido e uma textura.

Há um plano no filme em que Cherry Jones, que interpreta a mãe de Gatsby (Timothée Chalamet), está sentada diante do filho em um salão à parte ao fim de sua festa beneficente. A imagem é composta com muita pompa – a cenografia por trás da atriz é tão esplendorosa quanto a sua roupa –, mas o seu relato ressignifica essa bela superfície. É uma qualidade muito rara do cinema essa capacidade de construir uma beleza que nos confronta: que não contemplamos, mas que nos contempla. Um exemplo bruto dessa raridade são os musicais de Jacques Demy – e é algo muito próximo dessa visualidade que aparece aqui.

Ao andar pelas ruas da cidade (são os desencontros perpetrados por essas andanças que levam o filme adiante), os personagens estabelecem cada um uma relação muito diferente com os exteriores. Gatsby, o autoditada sombrio, viciado em apostas, tem uma preferência declarada pela chuva; Ashleigh (Elle Fanning), no entanto, é iluminada de uma forma muito peculiar pelo sol (em alguns momentos, seu cabelo parece mudar de cor); e Chan (Selena Gomez), enfim, parece estar muito à vontade com todas as faces dessa Manhattan por onde circula tão livremente.

O texto do filme é muito inteligente no modo como constrói e nos apresenta essa rede da elite nova-yorkina. Este é um ponto em que Allen já foi particularmente primoroso uma vez antes, na Londres de Ponto Final: Match Point (Match Point, 2005), possivelmente a sua maior obra. E é algo também que aparece no trabalho de outro diretor estadunidense, Whit Stillman, realizador do fantástico Metropolitan (Idem, 1990) que me parece ser, para Um Dia de Chuva em Nova York, a referência mais próxima. Todos esses filmes satirizam a elite ao mesmo tempo que se engajam com suas formas, repertórios, performances, sonoridades e visualidades.

Há todo um imaginário do cinema estadunidense que é difícil de se evitar quando nos engajamos com esse repertório. É muito fácil irmos do quarto de hotel que o casal Gatsby (o seu nome não é, afinal, nada sutil) e Ashleigh dividem brevemente para os salões, clubes e cruzeiros onde se davam os suntuosos números de dança dos musicais de Fred Astaire e Ginger Rodgers. Os filmes de George Cukor também aparecem ali em um lugar próximo; penso principalmente nas idas e vindas dos privilegiados personagens de Cary Grant e Katharine Hepburn circulando infinitamente a mansão moderna e suntuosa de Boêmio Encantador (Holiday, 1938).

Há semelhança na opulência, mas o que Um Dia de Chuva em Nova York coloca em cena vai além disso. Trata-se de pensar a comédia romântica tanto como uma forma cinematográfica quanto como um modo de dirigir o olhar às relações de classe. Poucos filmes recentes de Allen foram tão precisos em suas reflexões. Nas caminhadas por Nova York, sob a chuva ou iluminadas pelo sol, algo fica à mostra sobre o cinema e sobre a identidade criada de um lugar. Em um diálogo entre Gatsby e Chan, esta fala que é preciso coragem para criar algo fora da realidade. Ela reafirma aqui essa Manhattan criada, na história do cinema, na melodia de seus pianos; uma Manhattan de artifício, imaginada nas calçadas e nas telas.

( Fonte: www.cineplayers.com)

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