Ad Astra

Viver, amar

 RODRIGO TORRES

Os primeiros ruídos ao fim da sessão de Ad Astra – Rumo às Estrelas (2019) eram de comparações com Interestelar (2014) e Gravidade (2013). De fato, há coisas que os une — ?além da temática espacial, obviamente. A semelhança com Interestelar, como se podia esperar, é a carga dramática baseada na figura paterna. Com Gravidade, a exuberância visual e um par de cenas em que o medo e a solidão do astronauta são associados a lindas imagens que remetem a uma espécie de regressão para a fase infantil e embrionária. Porém, o mais relevante aqui é apontar o fato de serem três obras características de seus cineastas? — portanto, o fato de serem absolutamente distintas. Interestelar é um blockbuster grandioso, promissor, que vai construindo armadilhas para si mesmo e se torna um dos grandes erros da carreira de Christopher Nolan ao resolver um desfecho improvável com uma articulação filosófica sem sentido e bom gosto. Gravidade é um bom filme minimalista cuja potência maior reside em sua mise-en-scène complexa, e não ocupa o mais alto posto na filmografia de Alfonso Cuarón. O diferencial de Ad Astra é a habilidade de James Gray em articular a larga escala de uma exploração espacial com o intimismo das questões familiares que costuma abordar no cinema — assim sendo o seu projeto mais ambicioso e se concretizando como o maior, algo de fato espetacular.

Falando em primeiras impressões, desde sua abertura imponente e evocativa do gênero em que se filia, Ad Astra chama atenção pelo modo com que constrói o personagem de Brad Pitt. Com cenas que remontam, principalmente, a Blade Runner 2049 (2017), Roy McBride faz exames frequentes que analisam sua estabilidade psíquica. Mas aqui o “androide” examinado é um homem. Enquanto na sequência de Denis Villeneuve para o clássico de Ridley Scott os testes de linha de base se certificam que K (Ryan Gosling) não apresenta desvios emocionais — traço típico da raça humana — que possam comprometer o sistema, Roy exibe uma rigidez habitualmente atribuída aos robôs. Assim, o protagonista se revela um astronauta brilhante. Completo, pois também um militar com reflexos de um combatente, que responde intuitivamente às manobras mais complexas e aos momentos de maior perigo sem jamais se apavorar. Excelente para a Nasa, porém rachado em casa. Um homem que, com orgulho, confirma aos superiores que abdicou da vida amorosa, de construir uma família, para se dedicar à carreira na solidão espacial. Uma representação ainda mais profunda do retrato que O Primeiro Homem (2018) fez da vida de abnegação conjugal de Neil Armstrong (curiosamente, também vivido por Ryan Gosling). E, em um olhar mais amplo, pela reação admirada e satisfeita de seus chefes, uma abordagem crítica ao modo como o mercado espera que o homem médio se comporte em relação ao trabalho.

Porém, o foco de Gray é se aprofundar na psique de Roy e nos motivos de seu isolamento e dedicação ao ofício, ao país: Clifford Mcbride (Tommy Lee Jones), o maior astronauta da história dos Estados Unidos, supostamente morto em uma expedição para Netuno, e um pai ausente pelo qual Roy nutre a mesma sensação de abandono de Janet (Claire Foy), esposa de Neil Armstrong, no citado First Man. Esse sentimento é construído desde o início, em closes que sublinham a profundidade psicológica do protagonista e em narrações que complementam habilidosamente as imagens na tela. Desse modo, cada cena, mesmo no mais profundo silêncio, quando o texto é mais econômico, porta forte carga dramática. Tem sempre muita coisa acontecendo mesmo quando nada acontece. Intenso do início ao fim. James Gray e o corroteirista Ethan Gross partilham o grande mérito disso com Brad Pitt. Os cineastas apostam na capacidade expressiva do ator e ele entrega mais uma atuação inspirada em 2019. Entre estouros de luz e reflexos borrados, a fotografia de Hoyte Van Hoytema (Dunkirk) alterna criativamente os muitos primeiríssimos planos do rosto do ator, variando de acordo com a alternância psíquica do personagem e os olhares impenetráveis de seu intérprete. Assim, Roy McBride se junta a Cliff Booth (do também soberbo Era Uma Vez Em… Hollywood, de Quentin Tarantino) no panteão de personagens e composições mais instigantes do ano. E entre as melhores atuações da boa carreira de Brad Pitt.

Ad Astra constrói esse personagem e em torno dele toda uma narrativa que são, ao mesmo tempo, bastante sofisticados e diretos. As reflexões filosóficas que suscita fluem naturalmente, são pessoais, seguras e modestas, prescindem das afetações típicas de cineastas que se curvam ao legado de Stanley Kubrick e Andrei Tarkovski para conferir pedigree às suas ficções científicas espaciais. A despeito de cenas pontuais mergulhadas em vermelho, que remontam a 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) para expressar o estado de alerta emocional do protagonista, Ad Astra evoca mais o cinema blockbuster americano. Aliás, quando o Major Roy e o Coronel Pruitt (Donald Sutherland) chegam à Lua e revelam que a ocupação humana transformou o satélite natural da Terra em um grande shopping center com lojas e lanchonetes, sua frontalidade crítica e o espanto imediato que causa aludem a Vingador do Futuro (1990). O que é surpreendente e bizarro, haja vista a total contraposição entre o tratamento impecável de James Gray e os filmes de Paul Verhoeven?— crônicas sobre a moral humana que imaginam um futuro apocalíptico com muito caos, violência e sujeira. E as cenas de ação de Ad Astra são mais numerosas do que o esperado, mas na medida exata, imprimindo ritmo em uma história cujo eixo é um estudo de personagem. Funcionam como um fio condutor da longa jornada de Roy McBride.

Atenção! O texto a seguir pode conter spoilers!

Essa trajetória irá desaguar no almejado encontro entre pai e filho. Na verdade, um confronto. Um confronto esperado, mas nunca decepcionante. Primeiramente, pelo modo como aproveita a figura de Clifford, ressignificante de cena anterior do filme, a mais violenta, envolvendo primatas brutais. Mais precisamente, a figura explorada é a do próprio Tommy Lee Jones: perceba como seus traços (!) e suas expressões remetem à do gorila que ataca o comandante da nave a caminho de marte. A reação de Clifford ao toque de Roy, sua estranheza ao vestir o traje espacial, enfim, todos os seus tiques denotam um misto de medo e prontidão para o (contra)ataque, reflexos típicos de um animal selvagem. Tudo isso comunica condições reais que cosmonautas desenvolvem no espaço e fornece pistas sobre o que levara o personagem ao ponto crítico em que se encontra no filme. O outro aspecto que justifica e não compromete esse desfecho previsível, assim como toda a narrativa linear que Ad Astra segue, é sua coesão com o todo. Seu objetivo não é um final surpreendente (reações injustas me obrigam a questionar: quem disse que filmes precisam sê-lo?), e, sim, mostrar o árduo caminho percorrido por Roy até, enfim, encarar um trauma. E superá-lo, apesar do alto custo emocional e do dilacerante apagamento da memória afetuosa do próprio pai. Um herói que vira, literalmente, seu grande vilão. Para, no fim dessa luta cruciante, dar novo sentido à sua vida, outrora triste porque presa ao passado.

De certa forma, Ad Astra – Rumo às Estrelas é como uma resposta do próprio James Gray ao seu trabalho anterior, Z: A Cidade Perdida (2016), no qual um pai ausente (no âmbito de sua filmografia, um pleonasmo) abandona a família e a destrói ao contaminar o filho com sua obsessão?— uma aventura literalmente suicida. Ou será Ad Astra uma conversa do cineasta consigo mesmo? Aqui reside a enorme e singela beleza do filme. Em sua magnífica capacidade de focar uma exploração interplanetária no universo introspectivo de um astronauta (um lindo paradoxo) e poder contar uma história tão sensível, tão pessoal. Que encerra uma crônica pessimista sobre os rumos de uma sociedade colonizadora e predatória?— a larga escala? — ?com um desfecho otimista sobre a escala mais íntima: si mesmo. Nesse sentido, não me surpreenderei se o cultuado cineasta buscar novas histórias, superar esse tema, em projetos futuros. Ad Astra soa como o expurgo final de alguém que sofreu demais e não “aceita” mais. “I will live… and love.” Um tanto óbvia, quase brega, mas desde já, no contexto de Gray e de Roy, no rol das minhas frases favoritas no cinema.

( Fonte: www.cineplayers.com)

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