O festival de mentiras que assola o país

O festival de mentiras que assola o país

Por Carlos Junior

Uma das definições sobre mentira, segundo o dicionário Michaelis, é: “afirmação que se opõe à verdade; informação enganosa ou controvertida; enredo, moca.” Outra definição diz que mentir é uma “opinião sem fundamento”. Não vou entrar nos méritos sobre porque todos nós, pelo menos uma vez, mentimos, pois isso requereria muito mais do que um texto. Mas, convenhamos, mentiras em sua maioria são corriqueiras, nos protegem em um determinado momento. Mentir permite que continuemos em nossa zona de conforto, que não encaremos os fatos. Mentir nos ausenta de responsabilidades. Não me entenda mal, não defendo a mentira. Mas perceba, caro leitor, que o ato está cada vez mais corriqueiro em todas as esferas sociais. Principalmente na esfera política.

Segundo dados da Aos Fatos, o presidente Jair Bolsonaro já deu 244 informações falsas ou distorcidas. Pelo menos uma por dia. Os focos são diversos: campanha, ciência, desarmamento, meio ambiente, imprensa, entre outros. Em uma entrevista realizada pela revista Crescer, feita pelo jornalista Valdir Sanches, dona Olinda Bolsonaro, mãe do atual presidente, disse: “Ele (Jair) não era de falar besteira”. Seu irmão, Renato Antônio Bolsonaro, declarou que “ele tem o posicionamento dele, como político. Não tolera coisa errada.” Dá pancada nas pessoas… “Nós somos de formação militar, temos a disciplina consciente. Aquela retidão de procedimentos, de coerência, de não aceitar as coisas erradas. Se vemos uma fruta na beira da estrada, não pegamos porque não é nossa”. Parece que, de um tempo pra cá, as coisas mudaram um pouquinho, não?

Todo mundo já mentiu, pelo menos uma vez. Mentiu pra conseguir vantagens. Para não magoar outras pessoas. Mas a coisa fica mais grave quando o chefe do executivo mente, de forma incisiva e dissimulada. Quando desmentido, se defende igual a todo mentiroso. “Fui mal interpretado”, “não foi isso que quis dizer”, “não disse isso” ou simplesmente sai de cena. Muitas pessoas acreditam que o poder da ação é maior que o poder da palavra. Não se engane, palavras têm poder. Sob a perspectiva religiosa, a própria Bíblia menciona tal poder, como, por exemplo, em Gênesis, capítulo 1, versículo 3: “E disse Deus: Haja luz; e houve luz”. Obviamente, este não é o único exemplo. Mas a questão não é o poder da palavra. Vai além. É o poder da mentira.

A questão é que, quando a mentira parte de uma pessoa que detém um poder simbólico tão importante quanto o presidente da República, ficamos perdidos. Os apoiadores concordam com o que foi dito. A oposição tenta desmentir o que foi dito. O debate se arrasta a ofensas pessoais. Quando todos estão esgotados, surge outra mentira. O ciclo recomeça e não há progresso. A resolução dos problemas crônicos não é discutida. E o desemprego? Continua em alta. E os comércios? Fechando. E a Amazônia? Pegando fogo. E a violência? Continua violenta. Então pergunto: quais as consequências desse tipo de postura?

Uma das marcas desse governo é o ataque à imprensa. Muitas vezes gratuito, descredibilizando aqueles que trabalham com a informação. A coisa começa a desandar quando o próprio governo indica que as fontes mais confiáveis são as que defendem seu modus operandi. Pode não parecer, mas isso é grave, pois não ver o outro lado limita a reflexão. É a mesma coisa de apitar um jogo de futebol e beneficiar um dos times. É claro que alguns veículos de comunicação têm se esforçado para mostrar as mentiras e contradições deste governo. Outros foram criados para apoiar o governo, concordando e apoiando todo tipo de decisão, fugindo de seu papel e responsabilidade como mediador.

Aos poucos, vejo mudanças em certos discursos no que se referem a um momento obscuro de nossa história. Não me surpreenderia algumas trocas de palavras. Ao invés de ditadura, seria “intervenção em comum acordo”. Ao invés de sequestro e tortura, seriam “captura de terrorista de alta periculosidade” e “reeducação moral”. Ao invés de ditadores, “heróis”. Talvez esteja exagerando. Talvez não. Mas, ultimamente, não tenho duvidado de mais nada.

Minha mãe me ensinou que mentir é feio, pois isso estimula tudo à sua volta. Mas pior que mentir é acreditar na mentira de forma consciente. É apostar em uma opinião sem fundamento. Com todo respeito, isso não é viver. É negar a realidade. Ainda mais na era em que todos sabem de tudo.

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Carlos Junior é jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás e um dos autores de Superação: o esporte como meio de integração, documentário sobre futebol para amputados. Já não vê tanta graça nas coisas, mas sonha com um mundo melhor.

( Fonte: http://observatoriodaimprensa.com.br )

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