Deep Purple – Infinite

Deep Purple: Ao infinito… E além!

Resenha – InFinite – Deep Purple

‘Um dia, tudo será memória. As pessoas que andam naquela rua, as gentis, as sábias, as más, todas, todas serão memória. O mendigo que passa sem o cão, o ginasta, a mãe, o bobo, o cético, a turista, deus, inclusive, regendo o fim das coisas memoráveis, também será memória. Deus e os pardais. Os grandes esqueletos do museu britânico e todo sofrimento serão memória. Eu, sentado aqui, serei só esses versos que dizem haver um eu sentado aqui.’ poema de Antonio Brasileiro

De fato, tudo é finito. Nós, com nossas vidas efêmeras, somos finitos. A cosmologia prova que tudo é finito. Os astros, planetas, estrelas, galáxias. O tempo, inclusive, determinando a finidade da existência, é finito. Portanto, a finidade é uma condição para existência. Porém, se absolutamente tudo é finito, por que ainda dói tanto lidar com essa finidade? Lidamos com ela diariamente e ainda não nos acostumamos?

Enfim, deixando as digressões de cosmólogo amador de lado, talvez seja essa a mensagem que o derradeiro álbum do Deep Purple nos queira deixar. Recentemente, o baterista Ian Paice – membro fundador da banda e único presente em todas as formações, disse estar desnorteado com o encerramento do Deep Purple e ‘não sabe mais o que fazer’. De fato, acho que todos os fãs também estão.

Com o anúncio da última turnê, a colossal ‘The Long Goodbye Tour’, a banda aproveita e lança também seu último álbum: Infinite, lançado em 7 de Abril de 2017 e contendo dois singles lançados previamente: ‘Time to Bedlam’ e ‘All I Got is You’, ambos bem recebidos pelo público. O álbum conta com uma duração significativamente menor que seu antecessor, 45 minutos contra 60 minutos de ‘Now What?’ , e retirando o cover de 6 minutos de ‘Roadhouse Blues’ (The Doors), temos menos de 40 minutos de músicas autorais.

Porém, em nenhum momento o álbum sofre por falta de conteúdo. Pelo contrário, muitas vezes refrões são cantados apenas uma vez e alguns trechos carecem de uma repetição. Não serão poucas as vezes que você voltará algum trecho da música para ouvi-lo melhor, pois ele não se repete no restante da música. Bom, chega de enrolação, vamos direto pro álbum:

1º ‘Time to Bedlam’ – 4:35

Esta foi uma das músicas liberadas antes do lançamento do álbum e teve uma excelente recepção. Com uma introdução narrada por Gillan, a faixa já demonstra para o que veio. Um verdadeiro presente para os fãs da MK2. A cozinha Steve/Airen funciona muito bem aqui, com um solo intercalado entre o Hammond e a guitarra precisa de Morse, além de um trabalho competente de Paice.

Gillan apresenta uma bom trabalho também, porém a voz dele em músicas vem dividindo os fãs. Apesar de extremamente afinado e sempre no tom, a voz de Gillan intensificou o tom anasalado com o passar dos anos. Porém, acusar a voz de Gillan nessa altura do campeonato é uma tremenda injustiça, então vou fazer a devida justiça.

Primeiro que esse tom ‘anasalado’ já é característica desde Perfect Strangers e The Battle Rages On. Gillan nunca cantou ‘rasgado’, a não ser em meados ainda da década de 70 com ‘In Rock’ e ‘Machine Head’. Em segundo lugar, é necessária a compreensão de Ian ser septuagenário. É fisiologicamente impossível cantar como cantava há 40 anos (apesar de Highway Star, uma música com tom relativamente alto, ainda ser apresentada no tom original ao vivo).

Além do mais, há artistas de 30 anos hoje com uma voz terrivelmente mais anasalada e desafinada que Gillan em certos tons, principalmente em baladas. Poderia até dar um exemplo aqui, mas acho que já ficou meio óbvio de quem estamos falando.

2º ‘Hip Boots’ – 3:23

Aqui a banda volta ao clássico rock bluezeiro que vem permeando os álbuns da banda desde Perpendicular. Destaque para o refrão pegajoso e uma letra divertida, além de um excelente riff e, mais uma vez, a excelente cozinha Steve/Airen mostrando que o porque são os substitutos perfeitos para Blackmore e Lord.

Com certeza vai funcionar muito bem ao vivo. Tanto é que essa música já tinha sido executada ao vivo em meados de 2015.

3º ‘All I Got is You’ – 4:42

Juntamente com ‘Time to Bedlam’, essa foi uma das músicas liberadas antes do lançamento de Infinite. Uma música romântica extremamente emocionante, com caráter mais radiofônico. Contudo, nunca deixando de lado a essência do Deep Purple, intercalando muito bens os riffs e os versos lentos pela voz suave de Gillan e a base orquestrada.

Essa é uma das músicas que poderia passar por 6 minutos facilmente, porque o refrão é cantado apenas uma vez e os instrumentais são relativamente curtos, então essa é uma daquelas faixas que acaba e você fica no ‘quero mais’. Aliás, mas que refrão, hein? Com certeza faria sucesso nos anos 80 em um ‘Perfect Strangers’ ou ‘The House of Blue Light’.

De resto, dá pra citar o uso de um sintetizador mais ‘progressivo’ de Airey logo após o refrão, influência que fica mais evidente em algumas das próximas faixas

4º ‘One Night in Vegas’ – 3:24

Mais uma jazzística com um instrumental extremamente contagiante e bem feito, além de um peso particular. Assemelha-se um pouco a ‘First Sign of Madness’, faixa-bônus de ‘Now What?’.

Airey voa com seus teclados nessa música. Temos também boas linhas de baixo de Glover, apesar deste estar um pouco sumido neste álbum.

5º ‘Get me Outta Here’ – 3:59

Mais um presente para os fãs da MK2. Um riffão pesadíssimo interlado aos vocais bluezeiros de Gillan, e um bom refrão.

Para os mais atentos, durante um dos refrões Gillan usa um falsetto, técnica vocal da qual foi sua marca registrada durante muito tempo, mas foi tornando-se menos frequente nas composições por conta da idade. Bem, pouco é melhor que nenhum.

6º ‘The Surprising’ – 5:58

Como o próprio título sugere, essa música foi um surpreendente pra mim, e deve ter sido pra muita gente também. The Surprising é uma faixa melancólica e tenebrosa a princípio, destoando um pouco do resto do álbum.

Uma bateria com precisão cirúrgica de Paice e um bom riff de Morse, além dos vocais suplicantes de Gillan, com uma letra confusa e meio perturbadora, com versos como ‘And then the devil took my hand and said: Something you should see’ (E quando o diabo pegou minha mão e disse: há algo que você precisa ver). A música segue lenta até sua metade, onde um instrumental épico e progressivo entra no meio da música, com um solaço de Morse.

Logo após isso, a música simplesmente para e entra num clima lento, e é possível ouvir Gillan dizendo ‘Come along with me’. Transcendental e macabro, pra dizer o mínimo.

Enfim, um presente para os fãs. A melhor faixa disco pra mim e provavelmente pra muita gente também, mostrando o que a banda nunca deixou cair o nível de suas composições autorais, mesmo em quase 50 anos de carreira e com integrantes passando dos 70.

7º ‘Johnny’s Band’ – 3:51

Depois das duas porradas de peso anteriores, o álbum volta para o tom mais divertido e descontraído, com um bom refrão.

Johnny’s Band chama mais a atenção por conta da letra. Nessa pequena história, Johnny forma uma banda com seu amigo do baixo, ‘Bill’, e este convida ‘Pete’ e ‘Crazy Benny’. Logo eles alcançam o sucesso, nadam no dinheiro e ‘tudo que eles tocam se transforma em ouro’.

Porém, como tudo é finito, logo a banda de Johnny desanda. Benny caiu com drogas, Pete foi para um culto em Las Vegas e Johnny e Bill perderam todo o prestígio que tiveram outrora. Porém, eles continuam a tocar, mesmo seu som sendo ‘antiquado’.

Basicamente é a história que toda banda, inclusive o Deep Purple, enfrenta ou vai enfrentar algum dia. Tudo que sobe, desce. Tudo é finito, inclusive a fama. O que os diferencia é continuar ou não, e com os quase 50 anos de carreira, pode ter certeza que o Deep Purple fez a escolha certa.

Como diz Gillan, ‘É incrível ver que eles ainda estão por aí’, não só o Deep Purple como tantos outros. Portanto, dizer que X banda ‘já deveria ter acabado’ é dizer que o Rock só presta se estiver tocando na rádio. Temos que apoiar as bandas que estão aí até hoje na atividade, compondo e fazendo shows, mesmo quando o dinheiro e a fama já se foram.

Aliás, é nesse momento que as bandam tocam o que gostariam de tocar, compõe coisas que nunca compuseram, experimentam coisas novas, etc. Nenhuma banda é tão livre quanto uma que não tem mais a fama e não depende da venda de discos, e esse é um efeito que vem permeando o rock inteiro, desde Rolling Stones, Black Sabbath, etc.

8º ‘On Top of the World’ – 4:02

Seguindo a mesma linha da anterior, ‘On Top of the World’ cansa um pouco. Talvez não por ser exatamente ruim, mas depois de ouvir tantas músicas como esta, ser a 8ª faixa e ser inferior às demais do mesmo estilo a tornou a pior do álbum. Porém, a letra conta uma história engraçada.

9º ‘Birds of Prey’ – 5:48

Esta faixa é parecida com ‘The Surprising’, extremamente progressiva e muito bonita também. Podemos destacar uma excelente performance de Gillan, principalmente no final da música, e um excelente solo de Morse, sempre calcado no feeling. A letra também é extremamente bem construída, vale a pena dar uma olhada.

E está é a última faixa autoral de Infinite, do disco principal.

10º ‘Roadhouse Blues’ (The Doors cover) – 6:02

Um cover um pouco pretensioso do The Doors, talvez porque o vocal barítono e rasgado de Jim Morrison pouco se assemelha ao de Ian Gillan, principalmente em sua atual idade. Talvez a escolha do cover fosse equivocada. ‘It’ll Be Me’ (Jerry Lewis) de ‘Now What?’ ficou muito melhor.

11º ‘Paradise Bar’ (bônus track) – 4:10

Está faixa esteve presente no EP ‘All I Got is You’, inclusive com uma versão rehearsal de ‘Hip Boots’ na perspectiva de Paice.

Segue muito o estilo imponente de ‘Now What?’ e me faz acreditar que ela tenha sido composta para ele, sendo retirada posteriormente. Uma pena não ter sido colocada no álbum principal, pois é uma excelente faixa e agregaria ainda mais ao disco, principalmente no que tange ao tempo total.

Enfim, é um álbum que funciona bem ouvir em qualquer ordem as faixas, não tendo problema ouvir só algumas, etc. Todas as músicas funcionam bem de forma independente. Apesar do estilo ‘bluzeiro’ mais antigo, a mixagem é moderna, o som é moderno e as composições não são nem um pouco datadas, graças a visão moderna do Deep Purple e a mão mágica de Bob Ezrin.

E é isso. O provável último registro do Deep Purple. Digo provável pois não ficou exatamente claro do encerramento das atividades, mas é evidente que estes senhores logo mais não aguentarão tocar. Eu, como fã incondicional da era Morse/Airey, fico triste com o fim das composições autorais e, principalmente, com o possível fim da banda. Mas ficou feliz por ser mais uma banda que durante esses 50 anos, cumpriu de forma exemplar o papel de um dos pilares do Rock que sempre foi.

O tempo é realmente implacável. Se a finidade das coisas já preocupa este que vos escreve, que nem 20 anos possui, imagina estes senhores septuagenários? Mas não se preocupe, Purple: enquanto a história existir, suas músicas sempre estarão registradas nela.

Tracklist:

‘Time for Bedlam’ – 4:35
‘Hip Boots’ – 3:23
‘All I Got Is You’ – 4:42
‘One Night in Vegas’ – 3:23
‘Get Me Outta Here’ – 3:58
‘The Surprising’ – 5:57
‘Johnny’s Band’ – 3:51
‘On Top of the World’ – 4:01
‘Birds of Prey’ – 5:47
‘Roadhouse Blues’ – 6:00 (The Doors cover)

Ian Paice – drums
Ian Gillan – lead vocals, harmonica
Roger Glover – bass
Steve Morse – guitar, vocals
Don Airey – keyboards

Todas as composições foram escritas por Gillan, Paice, Glover, Morse e Airey

“Time for Bedlam” – 4:35 (Nota 9.0)
“Hip Boots” – 3:23 (Nota 9.0)
“All I Got Is You” – 4:42 (Nota 9.5)
“One Night in Vegas” – 3:23 (Nota 8.5)
“Get Me Outta Here” – 3:58 (Nota 8.5)
“The Surprising” – 5:57 (Nota 10)
“Johnny´s Band” – 3:51 (Nota 8)
“On Top of the World” – 4:01 (Nota 7)
“Birds of Prey” – 5:47 (Nota 9.5)
“Roadhouse Blues” – 6:00 (The Doors cover) (Nota 7)

Fonte: https://whiplash.net/materias/cds/260706-deeppurple.html

Assista:

Deep Purple “All I Got Is You” Official Music Video

 

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