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10 de Setembro de 2010
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Carta a um jovem suicida PDF Imprimir E-mail
Image Quem não pensa na morte leva uma vida sem sentido. Mas você se aproximou demais dela. Exagerou na intimidade. Acarinhou-lhe os vincos do rosto, as dobras da face. Afundou o corpo, todo o seu corpo, um corpo bonito e atlético, no afago traiçoeiro da maldita. Fomos grandes amigos, lembra? Jogávamos... por Rogério Pereira  ( Leia mais)
Carta a um jovem suicida
Por Rogério Pereira

Quem não pensa na morte leva uma vida sem sentido. Mas você se aproximou demais dela. Exagerou na intimidade. Acarinhou-lhe os vincos do rosto, as dobras da face. Afundou o corpo, todo o seu corpo, um corpo bonito e atlético, no afago traiçoeiro da maldita. Fomos grandes amigos, lembra? Jogávamos futebol juntos. Você quase conseguiu tornar-se profissional. Tinha futuro: atacante vigoroso, forte e rápido. Um animal feroz e livre a correr na savana. Não deu certo. Eu não tentei. Sempre desconfiei das minhas débeis habilidades — um ganso desnucado a deslizar na grama molhada. Mergulhei nos livros. Você fez outros mergulhos — alguns rumo à escuridão.

Uma tarde, meus olhos te encontraram no ônibus. Você não me viu. Eu não tive coragem de buscar-lhe as palavras. Muito tempo e equívocos nos separam. Este muro nunca será derrubado. Em silêncio (às vezes, sou tão silencioso que o mundo ensaia paralisar-se), acompanhei seus movimentos. Você, agora, é cobrador de ônibus. Encaminhava-se ao trabalho. Seis horas a cobrar passagens numa estação-tubo: esta cápsula de um futuro que nunca chegou. De longe, vi a marca — um colar nefasto cravado pelas unhas da maldita — em volta do teu pescoço.

A morte está em todos nós. Elias Canetti (não, você não precisa saber quem é) dizia que é necessário jamais esquecê-la; é necessário sempre resistir. Durante toda a vida, ele refletiu sobre a morte. Morreu aos 89 anos. Mas, no seu caso, por que desafiá-la? Por que seduzi-la, enredá-la num jogo ambíguo e perigoso? Em que você pensava quando envolveu seu pescoço com a corda? Uma víbora pronta para injetar-lhe o veneno nas vísceras. Estranho lhe perguntar isso agora. Soa covarde. Não tive coragem de encará-lo quando, dias depois, lhe encontrei na rua desta diabólica cidade. Já éramos dois estranhos, mas os resquícios das amizades infantis nunca nos abandonam. Se revirarmos o feno no estábulo, algum rato triscará o terreiro em busca de outro esconderijo. Poderia construir uma metáfora ou um eufemismo qualquer. Mas de que valem estes truques de linguagem quando se deambula pela vida com uma marca eterna em volta do pescoço? Somos perguntas e dúvidas. E pouco mais.

Naquela noite no casebre da periferia você jogou o corpo no vazio. A solidão: um corpo abandonado no vazio. A morte mede poucos centímetros entre a eternidade do assoalho e a sola dos pés do suicida. Quando meu avô se matou — ele conseguiu —, escrevi frases trôpegas, mas que jamais me deixaram em paz: “sobre a curiosidade: quando cheguei à praça, vi o homem enforcado balançar as pernas no vazio”. Mas o seu voo de pássaro em queda livre fracassou. O peso do seu corpo — ou seria do desespero? — arrebentou a viga. Mais alguns segundos e você deixaria de existir. O que acontece no exato momento em que a morte prepara-se para nos abocanhar? Você lembra? Não precisa responder.

Será que do lado de lá deste mundo as coisas são melhores?

Talvez nunca mais o encontre. Há muitos anos, não sei por onde anda. Ainda é cobrador de ônibus? Já não pego ônibus há algum tempo. Mas não se acerque tanto da morte; ela é sina a dobrar esquinas, tempestade a destruir plantações, a destelhar casas. Não tente seduzi-la. Ela é uma amante maldita. Uma atrevida visita em dia de chuva: senta no sofá da sala e só parte com a missão cumprida. Sei muito bem que tudo isso que nos rodeia é sem sentido; é um caminho tortuoso, cujo rumo nunca descobrimos; os passos na calçada, o abraço esquecido, o beijo desajeitado, o choro atravessado em alguma saudade, os relógios já não são apenas enfeite no pulso, são angústia metálica porque não podemos pará-los. Um relógio parado tenta ludibriar a morte?
Gosto dos versos do português Al Berto:
penso na morte
mas sei que continuarei vivo no epicentro das flores
no abdômen ensanguentado doutros-corpos-meus
na concha úmida de tua boca em cima dos números mágicos
anunciando o ciclo das águas e o estado do tempo
a memória dos dias resiste nos olhos dum retrato
continuo só
e sinto o peso do sorriso que não cabe no rosto
improviso um voo de alma sem rumo mas nada me consola
é imprevista a meteorologia das paixões
pássaros minerais afastam-se suspensos
vislumbro um corpo de chuva cintilando na areia
até que tudo se perde na sombra da noite… além
junto à salgada pele de longínquos ventos

E por que te escrevo? Sei que dificilmente lerá esta carta. Escrevo a você e a outros. Somos muitos. Nossas dúvidas são uma faca guardada na gaveta, pronta para dilacerar os músculos? Nem sempre. Não se esqueça: há uma porta na casa tomada. Em Rilke, o sombrio, às vezes, é luminoso; das trevas salta a luz:
Cavalgar, cavalgar, cavalgar, pela noite, pelo dia, pela noite.
Cavalgar, cavalgar, cavalgar.
E a coragem tornou-se tão lassa e a saudade tão grande. Não há mais montanhas, apenas uma árvore. Nada ousa levantar-se. Cabanas estrangeiras agacham-se sequiosas à beira de frontes lamacentas. Em nenhum lugar uma torre. E sempre o mesmo aspecto. É demais, ter dois olhos. Só à noite, às vezes, pensa-se conhecer o caminho. Talvez à noite tornemos sempre a refazer a jornada que penosamente cumprimos sob o sol estrangeiro? Pode ser. O sol é pesado como, entre nós, em pleno estio. Mas foi no estio que nos despedimos. Os vestidos das mulheres brilhavam longamente sobre o verde. E agora há muito tempo que cavalgamos. Deve ser, pois, outono. Pelo menos lá onde tristes mulheres sabem de nós.

Acho que Montale tem razão quando diz que “a vida é mais cruel do que vã”. Portanto, não enfie a cabeça no travesseiro — um avestruz aprisionado — na tentativa de reduzir o mundo; ele é infinito como a distância entre o assoalho e a sola dos seus pés. De nada adianta deixar o pó acumulado sobre os móveis da casa, ao lado da aranha tísica que nos observa. Os copos sujos continuarão na pia. É assim, não tem jeito. O visgo é grosso e perene na boca desesperada. Persistir é o caminho, mesmo quando a janela aberta nos convida ao mergulho, feito um trapezista curioso a acariciar o vazio.

( Artigo gentilmente cedido pelo autor. Publicado originalmente em www.vidabreve.com)
 
Rogério Pereira é escritor e jornalista, editor do jornal literário Rascunho e coeditor do site Vida Breve. Nasceu em 1973, em Galvão (SC). Vive em Curitiba (PR).

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