| Como Deixei de ser Deus, Pedro Maciel |
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Romance é obra cult que se presta a múltiplas interpretações
Como Deixei de ser Deus, Pedro MacielRomance é obra cult que se presta a múltiplas interpretações A chave para a leitura de Como deixei de ser Deus é a intertextualidade, procedimento clássico da literatura comparada, explorado igualmente na modernidade tardia, transmidiática, hoje. Aqui a referência de leitura é formal. Na capa do livro, o autor dá pistas do lugar onde o personagem-narrador inaugura seu estilo – o trocadilhesco Universo da representação. O título da obra Desvio para o vermelho, de Cildo Meireles, na fotografia da capa, alude ao afastamento das galáxias. Mestre da ironia, Meireles aparece poucas páginas adiante, com Glove Trotter. Em Desvio, objetos domésticos recebem a tinta irônica da saturação. Cada capítulo curto do novo livro de Pedro Maciel pode ser considerado um fragmento na linha machado-oswaldiana de reinvenção do romance. Um Deus conta sua metamorfose até a saturação. De estilo conciso, Maciel explora a filosofia e a blague modernista - “O esquecimento como um passatempo. O olho da memória, com o tempo, começa a usar óculos.”-, persegue a narrativa mítica e expõe o modo como pensadores canônicos definem os deuses. O autor dissolve o enredo em um discurso metafórico. Negrita frases e faz destaques tipográficos. Despontua. Alguns fragmentos se repetem e vários não passam de quatro linhas de extensão. Podem ser epigramas (em seu sentido polissêmico). De todo modo, então, de uma galáxia ameaçada de ser destruída por humanos conforme avisa o prólogo, o protagonista, condutor do enredo no romance modelo, é um pobre diabo que pensa que é Deus e não se reconhece no mundo: “Ontem visitei a cidade em que nasci; ninguém me reconheceu. Deus não se revela ‘no’ mundo”. A narrativa é conceitual, tece imagens do tempo mítico. Transfigurando a verossi milhança, o personagem fala em várias pessoas, do singular e plural, e trata o leitor com intimidade, evocando o estilo de Machado de Assis do Brás Cubas, que tem absurdamente o narrador póstumo. O livro tem conotação ecológica na indagação sobre o mundo. Pela presença de muitas referências, é uma obra aberta e cult (nas acepções do semioticista Umberto Eco), para a qual há múltiplas interpretações, porque, sobretudo, o narrador nada conclui. Ainda que se defina como romance e se desenvolva na frase, em Como deixei de ser Deus prevalece o estado lírico, de intensidade e prolongamento do instante. A destituição do gênero romance talvez esteja nessa intromissão da lírica na épica: “O tempo presente já vai longe da gente. Horas paradas; vento nas folhas.”. O autor acrescenta um significante filosófico – espécie de campo expandido –, devido à intromissão formal, entre as outras, da numeração dos aforismos, escritos para serem lidos mais de uma vez, ordenados de forma desconstrutiva – alguns números são suprimidos, além de evocar os ensaios sobre poesia e filosofia de Hölderlin e outras psicologias da composição – de Baudelaire, Cabral, Rosa. Neles, o leitor-detetive encontrará alusões literárias, bíblicas. A ambivalência entre prosa e poesia e entre romance e filosofia é ampliada em todos os aspectos. Deus estranha o tempo, o mundo e a si mesmo: “Ontem ele deu um perdido no passado e correu para se adiantar mas não parou lá adiante como se fosse um antes”. Como em Orlando, de Virginia Woolf, o tempo corre para a frente e para trás. A discussão é uma espécie de Doutor Fausto (de Thomas Mann) ao contrário: “: pelo amor de Deus se vai ao inferno. Deus é um bom Diabo”. Ou: O Diabo é uma versão de Deus; Deus é um verso do Diabo”. Ironicamente, é como se Deus fosse o próprio verbo, desenhado por palavras em justaposições, uma fórmula matemática ou o sol e a lua. “Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor Deus: aquele que é e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso. Se Deus existisse todo mundo ficaria sabendo.” Mônica Rodrigues da Costa (doutora em semiótica e comunicação, poeta e autora de Era tudo sexo, Ed. Maltese) (Jornal Estado de São Paulo, 24 de outubro de 2009) Cosmologia irônica Pedro Maciel cria romance fragmentário misturando citações filosóficas e diferentes vozes narrativas MANUEL DA COSTA PINTO COLUNISTA DA FOLHA NA CAPA de "Como Deixei de Ser Deus", de Pedro Maciel, aparece a indicação de que temos em mãos um romance. Quem o folheia, porém, encontra algo que não condiz com a definição: uma sucessão de parágrafos numerados, compostos por duas ou três orações, alternando frases em letra regular, em itálico e em negrito. Esses realces gráficos, por sua vez, parecem indicar que as vozes ali presentes podem ser do próprio autor ou citações de fontes diversas, todas em torno de temas como tempo, memória, esquecimento e Deus. Ou deuses, na perspectiva desse livro que parece narrar o declínio da ideia de uma perfeição ontológica (Deus como único ser que é causa de si mesmo) em benefício de um panteísmo cético, que suspende a fé em nossas representações na mesma medida em que se vê atado a elas como o demiurgo às suas criaturas: "O que me faz rir não são as nossas loucuras; são os nossos saberes" e "Cada um forja um deus para si", dizem dois fragmentos (o primeiro extraído de Montaigne, o segundo de Pascal) que sintetizam o teor filosófico do livro. Reduzir a leitura de "Como Deixei de Ser Deus" à sua temática ou ao divertido trabalho de detectar as fontes utilizadas, porém, põe a perder os enigmas propostos pela estrutura da obra. Voltando ao início: a designação "romance" nos convida a reconhecer algumas das características consagradas pelo mais inclassificável dos gêneros literários: narrador, personagens, ação, coordenadas reais ou imaginárias etc. Mesmo quando subvertidas, tais categorias latejam como o "common core" de que fala o linguista de certas regularidades que fazem a arte da palavra. As vozes criadas por Maciel, porém, parecem demasiado filosóficas ou eruditas; mesmo quando o tom é zombeteiro ("no inverno sou budista e no verão sou nudista"), a feição geral é de um florilégio de citações e aforismos. Não fosse por um detalhe fundamental: muitos dos trechos citados começam de maneira truncada, como numa fala entrecortada, e a numeração dos fragmentos é descontínua, vai saltando até culminar no 2.046, que no início fora anunciado mas tópico, da morte do "narrador" (""Eu" morri em 2046"). Enfim, é como se Pedro Maciel tivesse salvado, do desastre do tempo, esboços de cenas e personagens que deveriam compor um grande romance cosmológico. E é como se o inacabamento fizesse jus a essa cosmologia irônica, à maneira do "Monsieur Teste" de Paul Valéry, menos tentada pelos grandes sistemas do que atenta às verdades parciais descobertas pela mesma inteligência que um dia criou a ficção de Deus. Como Deixei De Ser Deus Autor: MACIEL, PEDRO Editora: TOPBOOKS ISBN: 8574751707 ISBN-13: 9788574751702 Livro em português Brochura - 21 x 14 cm 1ª Edição - 2009 |


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