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Cícero é o resultado de dez anos de pesquisa de Lira Neto, autor de livros como O Inimigo do Rei: Uma biografia de José de Alencar, premiado com o Jabuti em 2007, e Maysa: só numa multidão de amores, que deu origem à minissérie da TV Globo. Nesta biografia, uma das mais aguardadas... ( Leia mais)
Cícero é o resultado de dez anos de pesquisa de Lira Neto, autor de livros como O Inimigo do Rei: Uma biografia de José de Alencar, premiado com o Jabuti em 2007, e Maysa: só numa multidão de amores, que deu origem à minissérie da TV Globo. Nesta biografia, uma das mais aguardadas do ano, o autor se debruça sobre a vida do mais amado e controvertido líder religioso que o Brasil já teve: Cícero Romão Batista, o "Padim Ciço" dos romeiros e fiéis. Baseado em documentos raros e inéditos, o autor reconta, com riqueza de detalhes, os noventa anos de vida do sacerdote, desde seu nascimento no sertão cearense até a consagração como líder popular. Santo para alguns, impostor para outros, nesta biografia o padre Cícero é alvo de um olhar preciso, que desfaz equívocos históricos e ajuda a enxergar o homem por trás do mito. Organizado em ordem cronológica, o livro é dividido em duas partes, que exploram diferentes momentos da vida de Cícero. Em "A Cruz", o foco está na religião: a ordenação como padre, os supostos milagres, os primeiros conflitos com o bispado cearense, que chegaram ao Vaticano e culminaram em seu afastamento da Igreja. Em "A Espada", o que fica em primeiro plano é a política, carreira que Cícero abraçou depois de proibido de ordenar - e que fez dele um dos homens mais influentes de seu tempo. Depois de lutar pela emancipação de Juazeiro, cidade da qual foi prefeito por quase vinte anos, Cícero elegeu-se vice-presidente (o equivalente a vice-governador) do estado do Ceará. Chegou a apadrinhar um exército de jagunços, numa revolução armada que levou à derrubada do governo local; aproximou-se de Lampião, de quem buscava apoio para combater a Coluna Prestes; arquitetou um pacto histórico entre os coronéis sertanejos, que ajudou a apaziguar a região e fez de Juazeiro o centro das aristocracias rurais do Ceará. Já perto do fim da vida foi eleito deputado federal, e ainda encontrou forças para fazer oposição a Getúlio Vargas, a quem classificava de "mensageiro do Satanás". É sobre essa vida rica e atribulada que se debruça Cícero. Em um momento em que, acuada diante do avanço evangélico, a Igreja Católica avalia a reabilitação canônica do padre, esta biografia permite compreender a verdadeira dimensão de um dos personagens mais fascinantes da nossa história - e também resgata algumas das inquietações políticas e sociais que ajudaram a moldar o Brasil do século XX. Trecho Cícero logo percebeu que a rotina do seminário seria marcada pela vigilância e pela disciplina. O dia começava cedo, antes do nascer do sol. Às 5h15, deveria estar de pé, com a cama devidamente arrumada, já cumprida a obrigação das orações e meditações matinais. Os dormitórios permaneciam trancados o resto do dia, só sendo permitida a presença ali em casos extraordinários e, ainda assim, com a devida autorização e supervisão da direção da casa. Às cinco e meia da manhã, Cícero e os demais colegas seminaristas assistiam à missa, de onde saíam direto à sala de estudos ou, se fosse dia marcado para tal, à sala de banhos, aberta por curtos períodos, sendo rigorosamente fechada depois do horário determinado. Só então, às sete e meia, iam para o café - isso nos dias em que o jejum não era obrigatório. O resto da manhã de Cícero era dividido entre aulas e momentos de estudo individual, nos quais, ordenava o regulamento, deveria ser observado o mais profundo e respeitoso silêncio. Cícero almoçava ao meio-dia, rezava o terço e voltava à sala de aula onde, ao lado de matérias como Filosofia, Retórica, Teologia Dogmática, Humanística e Direito Canônico, recebia lições de Liturgia e de Canto Gregoriano. Em seguida, permanecia em estudos intensivos e obrigatórios até as seis da tarde, quando os seminaristas celebravam a Hora do Angelus - o instante da anunciação feita pelo arcanjo Gabriel a Maria. No início da noite, seguiam-se outras duas exaustivas horas de estudos e leituras espirituais compulsórias. Revistas, jornais e livros não-religiosos eram expressamente proibidos. Cartas enviadas por parentes eram lidas com olhos de lince pelo reitor, antes de serem entregues aos respectivos destinatários. Nas horas vagas, Cícero e os outros alunos podiam folhear livremente apenas a Bíblia, o Breviarium Romanum e alguns outros poucos títulos como O Caminho do Céu - Considerações sobre as máximas eternas e sobre os segredos e mistérios da Paixão de Cristo Nosso Senhor para cada dia do mês. O regulamento previa ainda que o jantar devesse ser servido às 20h, após o qual era obrigatória a oração noturna. Às 21h15, pontualmente, todos deviam estar recolhidos ao silêncio e à escuridão do dormitório, com exceção daqueles que obtivessem autorização para estudar à luz de vela por mais 45 minutos. Para Cícero e para qualquer outro colega, a privacidade e os minutos de solidão eram vetados. Possíveis conversas nos quartos ou sob as arcadas dos longos corredores do seminário eram reprimidas com austeridade. "Nos recreios evitarão os gritos desentoados, jogos e brinquedos ofensivos ou grosseiros", determinava o regulamento. Muito riso era sinal de pouco siso, dizia-se. Saídas não autorizadas eram punidas de modo exemplar, com imediata expulsão. De modo estratégico, o imenso casarão assobradado, um dos poucos prédios de dois pavimentos de toda a capital cearense, ficava situado distante do então centro da cidade. O isolamento físico do prédio garantia total imersão nas obrigações religiosas. Uma possível familiaridade com os criados que serviam ao seminário -- faxineiros, lavadeiras e cozinheiros, por exemplo - era repreendida. Havia um intermediário nomeado especificamente pela direção da casa para receber encomendas vindas de fora, inclusive a roupa limpa, nos sábados à tarde. Uma das raras ocasiões de contato de Cícero com o mundo exterior se dava nas missas domingueiras realizadas na capela, frequentada por pescadores e peixeiros que viviam na praia ali perto. Internamente, os alunos do curso preparatório eram separados dos mais adiantados, que frequentavam o curso teológico e estavam mais próximos da ordenação. Como medida adicional de controle, o primeiro artigo das regras internas proibia, de forma explícita, que fossem "cultivadas amizades particulares" entre colegas de seminário. Não se estava ali para fazer amigos e camaradas, mas para se aprender a servir a Deus. Autor: LIRA NETO Editora: COMPANHIA DAS LETRAS ISBN: 8535915583 ISBN-13: 9788535915587 Brochura - 23 x 16 cm 1ª Edição - 2009 |