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7 de Setembro de 2010
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Image O caro leitor já sabe que sou medieval. Por exemplo, gosto da medicina dos temperamentos. Isso não significa que não faça uso de antibióticos e vacinas e seja contra o lucro da ... por Luis Pondé ( Leia mais)

A porca

por Luis Felipe Pondé

Muitos dos que praticam a ciência gozam o poder e geram a paranoia

O caro leitor já sabe que sou medieval. Por exemplo, gosto da medicina dos temperamentos. Isso não significa que não faça uso de antibióticos e vacinas e seja contra o lucro da indústria farmacêutica. Pelo contrário, julgo que, quando se trabalha bem, deve-se ganhar muito dinheiro, apesar de que suspeito que, quando você se humilha por dinheiro, ele te esnoba. Um certo desdém pelo dinheiro se faz tão necessário na boa educação quanto saber sentar de pernas fechadas constitui o caráter público das mulheres decentes.

Grande parte da história minúscula da humanidade se encontra entre as pernas das mulheres e o discreto desdém pelos valores do mundo. Vê, caro leitor? Tenho uma tendência incontrolável a pensar que a vida se dá, muitas vezes, entre secreções ordinárias e a impermeabilidade à banalidade do mundo.

Tenho cá minha própria leitura dos temperamentos. Como todo cidadão pós-moderno, respiro releituras de tudo, ao sabor do meu humor do dia. Serei hoje niilista ou não? Julgue o caro leitor.

Acho que o temperamento determina a aceitação e a produção das ideias (por isso, e por mais alguns outros vícios, sou acusado de irracionalista). Nesse sentido, penso que indivíduos apaixonados pela objetividade da ciência adoram o poder terrível que a objetividade tem sobre a frágil subjetividade, perdida em suas lembranças e seus desejos. Resumindo a ópera: esses indivíduos adoram exercer o poder sobre os outros, oferecendo como arma a força da estatística. Nesse caso, o medo da verdade estatística se assemelha à fobia de altura diante do peso da gravidade física.

Associa-se a este traço autoritário a natureza paranoica do conhecimento que Freud já suspeitara. As relações entre fatos, compondo uma cadeia de significado com o objetivo de prever outros fatos futuros, alimentam-se de hábitos paranoicos. A paranoia respira bem na atmosfera do poder, do medo e da ciência. Perguntará o leitor desconfiado: você é contra a ciência? Responde o colunista: claro que não. Seu método é excelente. Todavia, muitos dos que praticam a ciência o fazem gozando de poder e gerando paranoia.

E o pior é que, em muitos casos, gerar paranoia é parte necessária do objetivo. Exemplo banal desse caso é quando nos encontramos diante dos "medos epidemiológicos". Claro que o leitor, mesmo culto, não é obrigado a dominar o jargão da medicina preventiva. Gripes e pestes são objetos da epidemiologia. Eu mesmo só conheço o jargão porque passei anos nos bancos da faculdade de medicina, entre cadáveres, parasitas e tumores. Pensei em ser ginecologista, geneticista ou psiquiatra, mas, como sou preguiçoso, acabei filósofo. É bem verdade que o conhecimento médico nos faz sentir que o resto da humanidade permanece nas sombras ancestrais da ignorância. É gostoso saber que existem ignorantes que podemos assustar e ensinar.

Dito isso, o leitor já deve ter pensado na terrível gripe A (H1N1) "antigamente" chamada de "suína", mas que, em nome do direito dos porcos, teve seu "nome fantasia" substituído pela denominação científica. Evidentemente que além da dignidade ameaçada dos porcos e de seus criadores, seu "antigo" nome poderia nos levar a pensar (equivocadamente) que podemos contrair o maldito e assassino vírus (depois da possível mutação cantada em prosa e verso) apenas se comêssemos ou beijássemos os porcos. Seu nome científico declara mais universalmente que, mesmo comendo outros animais e beijando outras espécies, podemos pegar o vírus.

Assim como a "espanhola" nos matou em grande estilo em 1918, a "porca" poderá nos ceifar.

Infelizmente a relação entre consciência epidemiológica e paranoia pública é íntima, mesmo porque obsessão e higiene são, em se tratando de vírus, irmãs gêmeas. Talvez venhamos a descobrir que estatisticamente os portadores ou praticantes da neurose obsessiva ou transtorno obsessivo-compulsivo, TOC para os íntimos, sobrevivem melhor em tempos de consciência epidemiológica aguda. Queria tanto ter TOC nesta hora... (terão já inventado um nome novo para esse quadro clínico? Se sim, perdoem-me pelo anacronismo).

Contra a paranoia costuma funcionar o senso do ridículo. Assim, sejamos limpinhos e obedientes, mas não esqueçamos que o paranoico é ridículo no seu gozo em causar medo. Respiremos com moderação.

Luis Felipe Pondé: Luis Felipe Pondé é filósofo e psicanalista, doutorado em Filosofia pela USP/Universidade de Paris e pós-doutorado em Epistemologia pela Universidade de Tel Aviv. Atuou como professor convidado nas universidades de Marburg (Alemanha) e de Sevilha (Espanha). Atualmente é professor do programa de pós-graduação em Ciências da Religião e do Departamento de Teologia da PUC-SP, da Faculdade de Comunicação da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado) e professor convidado da pós-graduação de ensino em ciências da saúde da Universidade Federal de São Paulo e da Casa do Saber.

Autor, entre outros títulos, de "O Homem Insuficiente", "Crítica e Profecia", "Filosofia da Religião em Dostoievski", "Conhecimento na Desgraça" e "Ensaios de Filosofia da Religião". É articulista da Folha de S. Paulo, com coluna semanal às segundas-feiras.

( Artigo gentilmente cedido por www.verdestrigos.com.br)

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