O Grande Circo Místico

O Grande Circo Místico

(O Grande Circo Místico, 2018)

Por Heitor Romero

A magia saturada.

Carlos Diegues é um dos diretores ao mesmo tempo mais importantes e menos reconhecidos do cinema brasileiro. Títulos como Bye Bye Brasil (idem, 1979), Xica da Silva (idem 1976) e Ganga Zumba (idem, 1963) são essenciais para pensar o novo cinema brasileiro e a própria identidade, cultura e história do nosso povo, enquanto Deus é Brasileiro (idem, 2003) e O Maior Amor do Mundo (idem, 2006) não passam nem perto de apresentar qualquer relevância para o cinema contemporâneo. Há mais de dez anos afastado da direção de ficções, mas ainda ativo como produtor e documentarista, ele agora retorna com O Grande Circo Místico (idem, 2017), o representante brasileiro que disputa uma vaga para melhor filme estrangeiro na próxima edição do Oscar.

A expectativa para seu novo trabalho era grande devido ao hiato do cineasta, mas principalmente pela ousadia do tema e pela pomposa produção e direção de arte. Acostumado a usar personagens comuns e dramas ordinários enquanto traça o retrato de uma época, Cacá volta a fazer o mesmo através da trajetória de diversas gerações de uma família austríaca, dona de um circo no Brasil, por meio da qual explora um pouco do país durante o século XX. A inspiração é um poema dos anos 1930, de Jorge de Lima, que por sua vez também inspirou o disco de Chico Buarque e Edu Lobo usado na trilha.

A mágica e o quê lúdico do poema tentam ser reproduzidos por Diegues em uma suntuosa produção, com direito a cores fortes, luzes abundantes, figurinos exuberantes e atores no limite da caricatura circense, mas todo esse pacote não encontra respaldo em uma história minimamente interessante. O barroco permitido pela trilha e pelos exageros próprios do tema caminha para algo mais artificial do que propriamente decadente e nostálgico pretendido pela história.

A ideia principal parece o interesse de Cacá em mostrar a autonomia feminina ao longo das gerações do século XX, além da predominância da arte mesmo sob diversas mudanças nos cenários políticos, econômicos e sociais. O personagem de Jesuíta Barbosa, curiosamente a melhor coisa do filme e não presente no poema original, reforça a ideia de atemporalidade do circo e suas mágicas, encantos e magias.

Nunca assumindo totalmente a fantasia do enredo e por vezes se voltando ao naturalismo e à dramaturgia contida, o diretor parece indeciso sobre que abordagem utilizar para explorar mais a fundo a solidão dos personagens, de modo que nem o próprio elenco consegue achar um tom certo para adotar. O francês Vicent Cassel, entusiasta de nosso cinema, é desperdiçado nesses momentos de indecisão e tem seu personagem quase anulado, enquanto Bruna Linzmeyer faz o que pode para conferir sentimento e emoção em suas performances no circo, já que fora do picadeiro o texto não colabora muito.

               Se existe qualquer magia em O Grande Circo Místico, ela ainda se encontra na simplicidade poética da obra de Jorge de Lima ou nos versos musicais de Chico Buarque e Edu Lobo. Enquanto cinema parece uma colcha de retalhos de clichês fellinianos, sempre muito visual e colorido, mas nunca de fato engraçado, sentimental e emocionante quanto se espera de uma sessão de circo.

( Fonte: www.cineplayers.com )

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